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"Espíritas" usam intolerância religiosa para abafar crise


Na semana passada, dois incidentes envolvendo o "movimento espírita" brasileiro serviram de recheio para o aparente noticiário de conflitos religiosos que tomou conta do período e que aparentemente são reflexo de pura intolerância religiosa.

Entre uma chacina nos EUA, de um branco contra nove negros evangélicos numa igreja na Carolina do Sul, e uma polêmica entre um jornalista, Ricardo Boechat, da Band News FM, e um pastor evangélico, Silas Malafaia (polêmica feita em função de uma menina espancada após sua família sair de um culto de candomblé), dois supostos atentados contra ícones "espíritas" ocorreram.

No último dia 18, vândalos destruíram o mausoléu de Francisco Cândido Xavier, em Uberaba, onde o anti-médium está enterrado, usando mármore de túmulo vizinho para danificar uma porta e parte do túmulo do figurão "espírita".

Já no dia seguinte, 19, foi a vez do suposto "médium" Gilberto Arruda, um dos mais antigos funcionários do "centro espírita" Lar de Frei Luiz, na Taquara, Zona Oeste do Rio de Janeiro, ser assassinado após ser espancado e ter um dos braços ferido, provavelmente por uma faca.

Os dois episódios, apenas por coincidirem com os demais incidentes, passaram a ser classificados pelo "movimento espírita" como atos de "intolerância religiosa", na tentativa de atribuir a crise que a doutrina sofre como "fruto de uma campanha de perseguição e calúnias".

Os dois fatos, no entanto, têm fortes indícios de estarem longe de qualquer intolerância religiosa, porque o assassinato de Gilberto Arruda deve ter sido fruto de alguma desavença pessoal, já que o "médium" trabalhava com dependentes químicos (leia-se viciados em drogas).

Gilberto teria talvez feito alguma reprimenda a um paciente, que simplesmente não gostou do recado, e resolveu se fingar. Consta-se que ele teria supostamente escrito bilhetes ameaçando o "médium", por conta dessa reprimenda, provavelmente feita contra um erro cometido pelo paciente. Mas isso é uma hipótese que pode ou não ser provada pelas investigações policiais.

Já o vandalismo contra o mausoléu de Chico Xavier se deve, muito provavelmente, a jovens desordeiros que viam algum memorial organizado, bonitinho, na frente, e resolveram bagunçar. Estavam drogados e seu ódio não era contra a seixa X ou Y ou contra esta ou aquela ideologia, mas contra a sociedade como um todo.

Eles poderiam bagunçar com o mausoléu de Chico Xavier como poderiam bagunçar com o cadáver embalsamado de Lênin ou com o túmulo de Ronald Reagan, pouco importando quem seja. Se havia um mausoléu bonitinho na sua frente, a ordem é bagunçar, como se faz pichando a casa de qualquer um que não venha com o humilhante recado "Espaço autorizado para pichadores amadores". Nenhuma gangue de pichadores gostaria de ser classificada de "amadora".

Só que a emotividade que envolve os seguidores de Chico Xavier, que apela para coisas irracionais como atribuir legitimidade de autoria espiritual de Humberto de Campos (a anos-luz de distância do "médium" enquanto ele era vivo e incapaz de escrever obras atribuídas à sua autoria espiritual, pelo estilo que estas apresentam), fora outras coisas mais aberrantes.

Há até um aspecto risível, de atribuir como "confirmação da profecia de Chico Xavier", relatos de militares norte-americanos que viram OVNIs no céu. O aspecto surreal disso tudo é que a "profecia" de Chico é atribuída a 1969 e os relatos dos dois militares são de ocorrências anteriores, de 1964 e 1967.

Acredita-se que uma profecia só pode ser confirmada por fatos futuros. Querer que ela se confirme por fatos passados não é mais profecia, não poderia mesmo ser. Uma previsão confirmada por fatos passados é tão ridícula quanto um débil mental dizer "Eu farei isso anteontem".

As acusações de intolerância religiosa a esses dois incidentes é uma tentativa de abafar as razões do "espiritismo" brasileiro sofrer tão aguda crise. Como não dá mais para repetir 1975, quando a crise roustanguista fez dissidentes optarem por um "roustanguismo sem Roustaing", com bajulação barata ao cientificismo de Allan Kardec, precisavam da sorte ou do azar para evitarem o declínio.

Somos contra a violência e o vandalismo, mas também não vamos interpretar as coisas pela emoção exaltada. Isso nos faz lembrar do acidente que quase matou o casal Angélica e Luciano Huck e seus filhos, em que a sobrevida deles foi atribuída à "força de Deus" e não à habilidade de um experiente piloto do avião em que o casal de apresentadores estava.

Vão espalhar pelos quatro ventos que o assassinato de Gilberto Arruda e o vandalismo contra o mausoléu de Chico Xavier são fruto de uma "campanha feroz" dos "irmãozinhos sofredores" contra aquilo que entendem como "doutrina de Kardec", "voltada" para a "fraternidade" e "ação sempre em prol do bem".

O problema é que o "movimento espírita" usa a filantropia e a caridade para abafar seus erros metodológicos, ideológicos e simplesmente práticos, porque a "mediunidade" que professam é feita no improviso, na especulação e em total desconhecimento da Ciência Espírita, que sempre alertou muita cautela nas práticas mediúnicas.

O que vemos é uma "mediunidadezinha" de nada se manifestar e o pessoal se empolgar sem estudar nem disciplinar a prática. O talento limitado, em vez de se ampliar, se reduz, e o suposto médium acaba inventando mensagens da sua própria mente, usando como gancho a propaganda religiosa, e bota na autoria de algum morto, famoso ou não, de sua escolha.

Recentemente, o mesmo Lar de Frei Luiz publicou uma mensagem atribuída à cantora Cássia Eller, morta no final de 2001. Uma mensagem longa demais que mais parece a de uma madre carmelita que se envolveu com rituais satânicos, descrevendo dragões e monstros que disse ter visto no mundo espiritual, e teorizando demais sobre umbral, provações "espíritas" etc.

Houve muita apelação nos últimos dois anos, que envolveu até jogo eletrônico e desenho animado com Chico Xavier, Turma da Mônica ensinando "espiritismo", e até o Fantástico comemorando demais uma inexpressiva filantropia de Divaldo Franco que mal consegue beneficiar 0,08% da população de Salvador, o que, em dimensões mundiais, é sinônimo de nada.

E ai, como nada disso convenceu, os "espíritas" estão em crise, e eles tentam pegar carona com o acaso para se dizerem "vítimas de intolerância religiosa", só porque graves incidentes cometidos por leigos ao "espiritismo" aconteceram. Eles são atos deploráveis, mas dizer que eles são fruto de "intolerância religiosa" ou "campanha contra o espiritismo" é um exagero.

A crise do "espiritismo" brasileiro continua porque a doutrina é historicamente vinculada aos seus piores vícios, como a sua inclinação pelos valores do Catolicismo medieval português e seu desconhecimento da Ciência Espírita. Seu pior pecado é dizer-se "kardecista" sem conhecer coisa alguma do pensamento de Allan Kardec. E criticar isso não é intolerância, é questionamento.

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