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Você não observou os limites da suposta mediunidade brasileira?

Vendo as atividades dos supostos médiuns brasileiros, tão espetacularizadas e festejadas pela mídia e pelos mais diversos setores da sociedade civil organizada, será que ninguém percebeu os limites dessas atividades que revelam quantas irregularidades podem haver diante de tamanhas limitações?

Por exemplo, vemos autores estrangeiros que aparecem mandando mensagens em português bem brasileiro. Recentemente, o suposto médium Adriano Correia Lima, divulgando pretensas psicografias no Facebook (justamente um reduto de identidades e informações fake que hoje causam problema a este portal das redes sociais), mostrou autores de origem germânica como Alfred Schutz, Erich Fromm e Hannah Arendt "escrevendo" como se esses autores fossem youtubers lançando livros e estranhamente defendendo o Brasil como "pátria-líder" da Terra, coisa que os três nunca fariam, em sã consciência.

Há o caso famoso de Francisco Cândido Xavier, que quando lançou o suposto livro épico Há 2000 Anos (Há Dois Mil Anos), que teria sido ditado por Emmanuel, mostrou irregularidades além da famosa gafe de mostrar um suposto Públio Lentulus, suposto senador inventado por uma carta apócrifa lançada na Idade Média, a Epístola Lentuli, que nem o Catolicismo medieval reconhecia como autêntico. Entre essas irregularidades, que envolvem erros históricos gravíssimos - como desconhecer a política de castas familiares que influi na denominação de filhos com os prenomes derivados do pai e da mãe (Públio, marido de Lívia, não poderia ter uma filha chamada Flávia, mas, pelo menos, Lívina ou Públia Lívia, por exemplo) - , há o fato risível de que Públio não entendia de latim, o idioma falado no tempo narrado do livro.

Mas também Adriano Correia Lima não difundiu os textos em alemão ou inglês de Schutz, Fromm e Arendt e os lançou em supostas psicografias em português bem brasileiro, o que poderia despertar desconfiança das pessoas, mas o coração mole faz muitos acreditarem nessas mensagens ridículas, tudo a pretexto das "mensagens de amor" e do "pão dos pobres".

Voltando a Chico Xavier, é famosa a queixa do hoje esquecido João de Scantimburgo, eminente jornalista, filósofo e intelectual brasileiro, morto em 2013, sobre a suposta mediunidade do mineiro. É fundamental lembrar das sábias broncas de Scantimburgo, expressas nas seguintes palavras, publicadas no Diário de São Paulo, em 08 de agosto de 1971:

"Eu insisto que a escrita automática é o produto do inconsciente do senhor, não de mediunidade. Na França foi publicada uma coleção de livros com o título genérico ‘A maneira de...’ em que algumas pessoas fazem a imitação de vários autores. Se o senhor ler, não distinguirá ainda que tenha profundo conhecimento do estilo do autor imitado. E trata-se de uma imitação consciente. O senhor imita autores dirigidos pelo inconsciente (?). Em nada supera as faculdades naturais. (...) Ora, quando se trata de conteúdo... Além de jornalismo, eu também tenho a carreira de Filosofia. E não foram psicografados conteúdos profundos e complexos como a obra (à maneira de) Platão, a de Aristóteles, a de Santo Agostinho, a de Santo Tomás de Aquino, a de Descartes, a de Kant, e a de outros filósofos e pensadores. Não será porque o senhor, Chico Xavier, não tem esses conhecimentos?".

Mesmo os textos em italiano difundidos por Chico Xavier soam fraudulentos porque o "médium" teria recorrido aos contatos com o religioso espiritualista Pietro Ubaldi, também poliglota. Ubaldi foi um italiano radicado no Brasil e seus livros fizeram relativo sucesso nas décadas de 1950 e 1960, tendo anúncios publicitários publicados em revistas como O Cruzeiro, dos Diários Associados.

MÚSICA, DESENHO, CURAS

Sem qualquer cuidado recomendado pela Ciência Espírita, até porque o "espiritismo" brasileiro tornou-se um vale-tudo doutrinário, um verdadeiro "samba do fantasma doido" no qual qualquer um inventa a suposta psicografia que quiser, e hoje se vê existirem até pseudografias com o nome de Teori Zavascki e Eduardo Campos. Já se fala até que virão supostos Prince e Dolores O'Riordan elegendo o Brasil como "nação que dominará o planeta" e falsos Luiz Melodia e George Michael criando arremedos das canções de cada falecido pedindo "paz" e "fraternidade cristã".

Mas tudo tem limites. Há espíritos que não podem ser acolhidos, senão a coisa vai longe demais. Daí a estranheza de não haver psicografias atribuídas a Machado de Assis ou a Nelson Rodrigues, por exemplo. Os estilos de cada um são peculiares demais para saírem textos "espirituais" feitos "à maneira de". Mané Garrincha, nem pensar. Se a biografia do jogador de futebol, famoso pelos dribles inusitados, trouxe sérios problemas com o processo movido pelos familiares do futebolista, imagine então o que daria uma suposta psicografia, por mais "mensagens de amor" e "lições de vida" apresentarem. Aquele roteiro "umbral, colônia espiritual e propaganda religiosa" não iria convencer os herdeiros do jogador.

Será que não aparecem psicografias em forma de desenho, performances instrumentais, jogos de futebol ou coisa parecida? Por que não aparecem obras "mediúnicas" mais inusitadas? Quando se chega a tanto, como no caso das pinturas, os estilos também soam pastiches e mostram as assinaturas com o estilo pessoal do "médium", pois a caligrafia é sempre a mesma, por mais que se tentem imitações diferentes.

E o que dizer das curas "mediúnicas"? Há a cirurgia clichê, que é a suposta retirada de um caroco de dentro de um organismo, atribuído a um câncer, realizada sem muitos cuidados de higiene e com instrumentos possivelmente enferrujados. O "espírito" é quase sempre atribuído a um alemão e a suposta realização é tida como um "triunfo".

Mas não há cirurgias que curem, por exemplo, a paralisia dos movimentos. Evita-se esse recurso porque a suposta experiência ficou visada em fraudes ocorridas nos cultos evangélicos, nos quais ações de descarrego promovidas pelos pastores, usando pessoas sem deficiência física que se passavam por paraplégicos ou tetraplégicos, que de repente voltavam a andar após uma oração de um pastor. A fraude se revelou depois, quando se denunciaram as armações dos bastidores.

Esses limites acabam ofendendo a Ciência Espírita, porque a "mediunidade" feita no Brasil é quase sempre fraudulenta, repleta de obras fake e ações de supostas curas feitas à margem da ciência da Terra. O Espiritismo autêntico não aprova a "atividade paralela" da "mediunidade curandeira" improvisada e feita por processos sombrios e místicos, sem higiene nem técnicas conhecidas, denunciando tais atividades como charlatanismo e prática ilegal da medicina. 

É bom deixar claro que a doutrina de Allan Kardec respeita e recomenda as atividades científicas feitas na Terra, e sempre mantém respaldo à ciência terrena, desde que feita de acordo com a ética, o bom senso, a lógica e o benefício humano.

Portanto, quando a atividade "mediúnica", dedicada a supostos objetivos de curas de doenças graves e consideradas ainda de cura desconhecida, se revela à margem da Ciência Espírita e não dialoga com os procedimentos conhecidos pela medicina da Terra, resultante de muitos estudos científicos e outros trabalhos e cuidados estabelecidos, a "cura mediúnica" se torna uma atividade deplorável, estando esta a serviço do obscurantismo, do misticismo e da concorrência desleal com o trabalhoso esforço de cientistas e médicos em estudar meios de cura para doenças graves e em desempenhar trabalhos para manter ou recuperar a saúde dos seres vivos.

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