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A "carteirada" astral é permitida?

HUMBERTO DE CAMPOS E AUTA DE SOUZA - Duas das vítimas de Francisco Cândido Xavier.

Há uma gíria no jargão jurídico chamada "carteirada". É quando alguém se vale de alguma função ou posição social para reivindicar vantagens e privilégios sobre os outros. O popular "Você sabe com quem está falando?" que faz com que certos privilegiados se esqueçam de seus deveres e se lembrem demais de seus direitos, abusando-se deles.

Pois Chico Xavier se valeu do status que tinha, mesmo por inversão. Por exemplo, o de usar sua fragilidade, sua origem humilde e sua raiz interiorana, além de sua sua relativa paranormalidade para se apropriar de nomes anônimos ou ilustres e passar impune mediante as piores e mais evidentes irregularidades.

Ele usurpou os nomes de escritores e intelectuais falecidos, criando pastiches literários que quase nada lembram os respectivos estilos originais, a não ser semelhanças pontuais, mas dignas de qualquer imitação. Também usurpou os nomes de mortos comuns, não famosos, lançando os mesmos apelos religiosos com a mesma linguagem e a caligrafia do "médium".

Chico Xavier cometeu outros erros, mas vamos dirigir nosso foco para a alegada mediunidade. E dois exemplos são bem caraterísticos, Humberto de Campos e Auta de Souza, prematuramente falecidos - ele, aos 48 anos em 1934, ela aos 25 anos, em 1901 - , um escritor do Parnasianismo e uma poetisa da fase final do Romantismo, não puderam sobreviver com autonomia na lembrança da posteridade.

Ambos passaram a se tornar praticamente propriedade de Chico Xavier. Não podem ser dissociados do "médium", e, embora em tese Chico Xavier fosse tido como divulgador das mensagens dos espíritos, a verdade é que Auta e Humberto "reapareceram" como porta-vozes simbólicos do religiosismo do anti-médium.

O caso Humberto de Campos causou polêmica. Os críticos literários já saíram com desconfiança. Herdeiros de Humberto tentaram processar, mas sua petição saiu confusa. Eles queriam que peritos da Justiça avaliassem as supostas obras psicográficas, para, no caso de serem reconhecidas autênticas, a família recebesse os direitos autorais, e, no caso contrário, recebessem indenização de parte dos réus, Chico Xavier e a Federação "Espírita" Brasileira.

Os juízes não entenderam o caso e disseram que as regras de direitos autorais só valiam para os vivos, não entendendo a intenção dos herdeiros de Humberto. Por isso, julgaram a ação improcedente, menos por sentirem pena do caipira de Pedro Leopoldo e mais por simplesmente não entender a questão. Afinal, era o ano de 1944 e a sociedade tinha um nível de compreensão muito mais estreito das coisas. O Brasil era predominantemente agrário e, se até hoje, existe provincianismo até nos condomínios da Barra da Tijuca, quando mais há sete décadas atrás?

Houve um empate jurídico, mas um desses empates que rendem ponto. Se Chico Xavier não foi vitorioso na batalha judicial, ele saiu em vantagem e o mito nasceu a partir daí. Além disso, a apropriação indébita ainda foi cinicamente justificada pelo advogado da FEB, Miguel Timponi, usando o bom-mocismo para justificar a "psicografia" de Humberto de Campos:

"Há injúria ao nome venerado de Humberto de Campos? Há, porventura, desrespeito à sua memória? Há qualquer referência desprimorosa ao seu caráter? Há qualquer insinuação maldosa, reticente, equívoca, à sua personalidade? Há qualquer aleivosia ou depreciação à sua conduta como cidadão ou como escritor?

— Não. — São livros de robusta e austera moral e que têm merecido as melhores apreciações. São ditados de grande saber e de profundas cogitações filosóficas. São obras que convidam ao estudo, à meditação, e que não comprometem os princípios da nossa organização política, porque não atentam contra a segurança pública e os bons costumes.

Releva, ao contrário, acentuar que as publicações da Federação Espírita Brasileira só poderiam concorrer para maior procura das obras produzidas em vida do escritor, porque todos quantos não as conhecem seriam impelidos à sua leitura, para estudo e confronto, ou mesmo por mera curiosidade".

O problema é que nem a "robusta e austera moral" serve como desculpa para que venham a público obras que, numa comparação mais ligeira, diferem completamente de estilo entre os livros produzidos em vida e os livros "espirituais". Se existe alguma falsificação por trás, não é com mensagens bondosas que se permitirá tal atividade, que se torna igualmente desonesta.

Uma amostra da disparidade do estilo dos autores deixado em suas obras originais e as supostas "psicografias" pode ser observada nos casos de Humberto de Campos e Auta de Souza, já que existem diferenças grosseiras e, principalmente, uma queda de qualidade nas obras "espirituais", que valeu ao jornalista Léo Gilson Ribeiro o comentário irônico: "o espírito sobe, o talento desce".

HUMBERTO DE CAMPOS x "ESPÍRITO HUMBERTO DE CAMPOS"

No caso do Humberto de Campos, vale comparar dois textos: um é o "mais religioso" que Humberto, na verdade um ateu, havia escrito em sua carreira, e mesmo assim sendo mais um conto sobre a infância que simplesmente cita o menino Jesus.

O texto tem suas ironias e um desfecho que o "espírito Humberto" não iria escrever de jeito algum. O conto "Jesus" está no livro O Monstro e Outros Contos, de 1932, livro que foi lançado na ocasião da resenha de Parnaso de Além-Túmulo, a famosa coletânea de pastiches literários risivelmente remendada cinco vezes em cerca de duas décadas.

Confrontando com o texto, nota-se que os dois textos mostram uma diferença de estilo, não só pela abordagem temática, mas pela escrita. Segundo o advogado dos herdeiros de Humberto de Campos, Milton Barbosa, a suposta psicografia atribuída ao autor é de qualidade inferior às obras originais, incluindo cacófatos grosseiros e um pouco cuidado no uso de palavras, apesar da pretensão de erudição linguística.

Nota-se também que o Humberto de Campos original adotava uma linguagem culta de renomado literato, mas fluente e informal, em muitos momentos descontraída e de leitura fluente e fácil. A do "espírito Humberto", não bastasse uma narrativa digna de padre católico, era pesada, tristonha, prolixa e de leitura muito difícil e cansativa. Pedimos a paciência do leitor para esses dois textos.

JESUS

Por Humberto de Campos - Livro O Monstro e Outros Contos, 1932.

A casa de José, o carpinteiro, em Nazaré, ficava à margem do caminho que leva a Tiberíades. Pequena e humilde, mais humilde parecia, ainda, pela ancianidade, e por não ser possível ao dono reconstruí-la. Edificada por Jacó, primogênito de Matran, tornara-se, por morte deste, propriedade do esposo de Maria, filha de Ana, da casa de Davi. E como o carpinteiro já se encontrasse velho e alquebrado de forças, ia deixando que o casebre se desmoronasse, açoitado pelos grandes ventos que sopravam no verão, das bandas do golfo de Caifa, e no inverno, da alta cordilheira que orna o país de Sichen. Sem cercas que a defendessem, era a casa rodeada de limoeiros, que embalsamavam o ar, e que a afogavam, com a suas frondes de um verde escuro, como punhados de mangericão em torno de uma rosa fanada.

Era à sombra de um desses limoeiros José trabalhava, quando fazia bom tempo, manejando, trêmulo, o seu serrote e a plaina primitiva. E era sob a copa de todos os outros que brincavam, a manhã toda, e a tarde inteira, as crianças das casas vizinhas. Atraídas para ali pela frescura do local, vinham elas, isoladamente, ou duas a duas, ou três a três, com o seu perfil judaico, os olhos muito vivos e chegados um ao outro, para as correrias habituais. Trazia-as, muitas vezes, João, filho de Zacarias, antigo sacerdote do Templo, em Jerusalém. O senhor, entre elas, da casa e dos limoeiros, era, porém, Jesus, filho do carpinteiro, mais moço do que João quase um ano, e que era ainda seu parente, pois que Maria, esposa de José, e Isabel, esposa do velho sacerdote, eram primas e, apesar da diferença de idade, amigas e confidentes.

As duas famílias, a de Zacarias como a do carpinteiro, traziam no espírito, constantemente, duas preocupações. Segundo a palavra dos Profetas, o povo de Israel teria de cair sob o jugo do estrangeiro, do qual o livraria, no entanto, um grande Rei, que viria disfarçadamente à terra, com o sangue de Davi. A primeira parte das profecias estava cumprida. Os sucessores dos Macabeus haviam ateado a guerra civil na Judeia, e invocado, em certo momento, o auxílio dos romanos, que tinham escolhido entre eles um rei, de nome Herodes, o qual reinava em Jerusalém. E a outra, a mais grave e difícil, parecia, agora, em via de realização.

Efetivamente, nove anos antes, achando-se Zacarias sozinho no Templo, em Jerusalém, incensando o altar, Ouvira um ruído, que lhe parecera o de um grande pássaro em voo. Volvera, lento, o rosto, e estacara, surpreso. Diante dele, vestido de uma túnica diáfana, e que parecia feita com o fumo do turíbulo, estava um mancebo de fisionomia resplandecente, de cujas espáduas saíam grandes asas, e que lhe dissera, em palavras sem mistérios, que sua esposa, Isabel, lhe daria, dentro de alguns meses, um filho varão. Dissera isto, e desaparecera.

Suspeitando dos próprios olhos e dos próprios ouvidos, duvidava o sacerdote do próprio entendimento. Se a esposa, na mocidade, não lhe dera um filho, como lho daria, agora, quando os dois, ele e ela, já se sentiam velhos? Que fazer, pois, naquela emergência? Narrar o sucedido? Contar à mulher, e aos íntimos, a ocorrência do Templo? Melhor seria, talvez, não pecar pela palavra, quem já pecava, incrédulo, pelo pensamento. E desse dia em diante, aguardando os acontecimentos de cada hora, os seus lábios se selaram para o mundo, enquanto a sua alma se descerrava, inteira, para os olhos de Deus.

Semanas depois, o mesmo Enviado aparecia, belo e fulgurante, na casa do carpinteiro, em Nazaré. Levava àquele outro lar uma notícia idêntica. Maria, esposa de José, seria mãe. e o seu filho, neto de Reis, seria o Rei da Judeia.

De acordo com o anunciado, Isabel tivera, em verdade, um filho, que tomou o nome de João. E Maria concebera outro, que era, agora, essa triste criança, de seis anos, sob cujos olhos, de uma estranha doçura, as outras vinham, de longe, brincar à sombra cheirosa dos limoeiros.

Desde o nascimento do menino, em Belém, quando iam àquela cidade para serem recenseados por ordem de Augusto, o carpinteiro e a esposa se haviam convencido dos altos
destinos do filho. Daquele infante dependia, desde aquela hora, a sorte do Povo de Deus. Daí os cuidados de que o rodeavam, a cautela com que o vigiavam dia e noite, o susto com que acompanhavam as suas menores enfermidades. Naquele pequenito moreno, de olhos claros e fisionomia meiga, estava, não apenas o filho único, mas o Rei; não unicamente o rebento miraculoso de um casal que ia desaparecendo sem prole, mas o Salvador de uma raça, prometido pelas profecias do fundo remoto dos séculos.

Jesus havia nascido, entretanto, tão alegre como os outros meninos de Nazaré. Ao se lhe enrijar o pequeno corpo, de linhas modelares e puras, procurara correr, como os outros, e, como os outros, subir às árvores, roubar o ninho aos pássaros, ou banhar-se no lago, quando a família ia a Genezaré ou a Tiberíades. Mal, porém, tentava ia dessas distrações infantis, a mãe acorria aflita, ou acorria o pai, preocupado, detendo-lhe o gesto ou o desejo. E essa diferença de tratamento acordava-lhe dúvidas no espírito e no coração. Por que, sendo o mundo tão vasto, e a vida tão boa, só lhe não cabia, a ele, a alegria de ser livre como as crianças? Aquelas ondas cariciosas do lago, e aqueles ninhos de rouxinol dos olivais, teriam sido feitos unicamente para Mateus, filho de Marta, para Barnabé, filho de Manassés, para Eleazer, filho de Josué, ou, mesmo, para João, seu primo, tão violento que só procurava brinquedos de guerra, em que sempre saía vencedor? Por que, ainda, a curiosidade de toda a gente, em torno da sua pessoa: o sorriso de zombaria de uns, ao apontá-lo de passagem, e o respeito comovido de outros, - alguns dos quais chegavam, até, a ajoelhar na poeira dos caminhos para beijar-lhe, chorando, a fímbria grosseira da túnica?

Sob os limoeiros copados, cujas ramas, aqui e ali, roçavam o chão, as crianças brincavam, correndo em algazarra, simulando combates de judeus e romanos. Por cima das ramagens, o céu era todo azul e ouro, e uma brisa fresca soprava, como uma carícia, das bandas do lago. Balouçado por ela, o limoal escrevia em hebraico, aqui e ali, no solo pedregoso, com letras de luz abertas na sombra, pequenos poemas misteriosos. Tudo era, em torno, festivo e jovial. As próprias aves, tontas de luz, cantavam mais alto.

Sentado junto ao muro limoso de um poço, Jesus, ele só, estava triste.

- Pai, - havia pedido, momentos antes, ao carpinteiro, - deixa-me brincar com os outros!

- Não, meu filho; não podes, - respondera, paternal, o ancião, passando a mão trêmula e rude pelos seus cabelos castanhos. - E se caísses, em uma dessas correrias, que seria de nós, e do teu Povo?

Aquelas palavras eram, para ele, um mistério. Que significavam elas? Que Povo era esse, que era seu, e que ele não conhecia?

Os seus olhos, doces, e mansos, encheram-se de sombra. Uma lágrima correu, lenta e límpida, parando aqui e ali, pela sua face morena, vindo deter-se ao canto da boca miúda, pondo, nela, um desagradável gosto de sal.

Jesus de Nazaré começava a sofrer, nesse dia, a tristeza de ter nascido Deus...

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JUDAS ISCARIOTES - O emocionante encontro de Irmão X com o Apóstolo

Francisco Cândido Xavier - atribuído ao suposto espírito Humberto de Campos - Livro Palavras do Infinito, 1936.

Silêncio augusto cai sobre a Cidade Santa. A antiga capital da Judéia parece dormir o seu sono de muitos séculos. Além descansa Getsêmani, onde o Divino Mestre chorou numa longa noite de agonia, acolá está o Gólgota sagrado e em cada coisa silenciosa há um traço da Paixão que as épocas guardarão para sempre. E, em meio de todo o cenário, como um veio cristalino de lágrimas, passa o Jordão silencioso, como se as suas águas mudas, buscando o Mar Morto, quisessem esconder das coisas tumultuosas dos homens os segredos insondáveis do Nazareno.

Foi assim, numa destas noites que vi Jerusalém, vivendo a sua eternidade de maldições.
Os espíritos podem vibrar em contacto direto com a história. Buscando uma relação íntima com a cidade dos profetas, procurava observar o passado vivo dos Lugares Santos. Parece que as mãos iconoclastas de Tito por ali passaram como executoras de um decreto irrevogável. Por toda a parte ainda persiste um sopro de destruição e desgraça. Legiões de duendes, embuçados nas suas vestimentas antigas, percorrem as ruínas sagradas e no meio das fatalidades que pesam sobre o empório morto dos judeus, não ouvem os homens os gemidos da humanidade invisível.
Nas margens caladas do Jordão, não longe talvez do lugar sagrado, onde Precursor batizou Jesus Cristo, divisei um homem sentado sobre uma pedra. De sua expressão fisionômica irradiava-se uma simpatia cativante.

– Sabe quem é este? - murmurou alguém aos meus ouvidos - este é Judas.

– Judas?!...

– Sim. Os espíritos apreciam, às vezes, não obstante o progresso que já alcançaram, volver atrás, visitando os sítios onde se engrandeceram ou prevaricaram, sentindo-se momentaneamente transportados aos tempos idos. Então mergulham o pensamento no passado, regressando ao presente, dispostos ao heroísmo necessário do futuro. Judas costuma vir à Terra, nos dias em que se comemora a Paixão de Nosso Senhor, meditando nos seus atos de antanho...

Aquela figura de homem magnetizava-me. Eu não estou ainda livre da curiosidade do repórter, mas entre as minhas maldades de pecador e a perfeição de Judas existia um abismo. O meu atrevimento, porém, e a santa humildade de seu coração, ligaram-se para que eu o atravessasse, procurando ouvi-lo.

– O senhor é, de fato, o ex-filho de Iscariot? – perguntei.

– Sim, sou Judas – respondeu aquele homem triste, enxugando uma lágrima nas dobras de sua longa túnica.

E prosseguiu:

Como o Jeremias, das Lamentações, contemplo às vezes esta Jerusalém arruinada, meditando no juízo dos homens transitórios...

– É uma verdade tudo quanto reza o Novo Testamento com respeito à sua personalidade na tragédia da condenação de Jesus?

– Em parte... Os escribas que redigiram os evangelhos não atenderam às circunstâncias e às tricas políticas que acima dos meus atos predominaram na nefanda crucificação. Pôncio Pilatos e o tetrarca da Galiléia, além dos seus interesses individuais na questão, tinham ainda a seu cargo salvaguardar os interesses do Estado romano, empenhado em satisfazer as aspirações religiosas dos anciãos judeus. Sempre a mesma história. O Sanedrim desejava o reino do céu pelejando por Jeová, a ferro e fogo; Roma queria o reino da Terra. Jesus estava entre essas forças antagônicas com a sua pureza imaculada. Ora, eu era um dos apaixonados pelas idéias socialistas do Mestre, porém o meu excessivo zelo pela doutrina me fez sacrificar o seu fundador. Acima dos corações, eu via a política, única arma com a qual poderia triunfar e Jesus não obteria nenhuma vitória. Com as suas teorias nunca poderia conquistar as rédeas do poder já que, no seu manto de pobre, se sentia possuído de um santo horror à propriedade.

Planejei então uma revolta surda como se projeta hoje em dia na Terra a queda de um chefe de Estado. O Mestre passaria a um plano secundário e eu arranjaria colaboradores para uma obra vasta e enérgica como a que fez mais tarde Constantino Primeiro, o Grande, depois de vencer Maxêncio às portas de Roma, o que aliás apenas serviu para desvirtuar o Cristianismo. Entregando, pois, o Mestre, a Caifás não julguei que as coisas atingissem um fim tão lamentável e, ralado de remorsos, presumi que o suicídio era a única maneira de me redimir aos seus olhos.

– E chegou a salvar-se pelo arrependimento?

– Não. Não consegui. O remorso é uma força preliminar para os trabalhos reparadores. Depois da minha morte trágica submergi-me em séculos de sofrimento expiatório da minha falta. Sofri horrores nas perseguições infligidas em Roma aos adeptos da doutrina de Jesus e as minhas provas culminaram em uma fogueira inquisitorial, onde imitando o Mestre, fui traído, vendido e usurpado. Vítima da felonia e da traição deixei na Terra os derradeiros resquícios do meu crime, na Europa do século XV. Desde esse dia, em que me entreguei por amor do Cristo a todos os tormentos e infâmias que me aviltavam, com resignação e piedade pelos meus verdugos, fechei o ciclo das minhas dolorosas reencarnações na Terra, sentido na fronte o ósculo de perdão da minha própria consciência...

– E está hoje meditando nos dias que se foram... - pensei com tristeza.

– Sim... Estou recapitulando os fatos como se passaram. E agora, irmanado com Ele, que se acha no seu luminoso Reino das Alturas que ainda não é deste mundo, sinto nestas estradas o sinal de seus divinos passos. Vejo-O ainda na Cruz entregando a Deus o seu destino... Sinto a clamorosa injustiça dos companheiros que O abandonaram inteiramente e me vem uma recordação carinhosa das poucas mulheres que O ampararam no doloroso transe... Em todas as homenagens a Ele prestadas, eu sou sempre a figura repugnante do traidor... Olho complacentemente os que me acusam sem refletir se podem atirar a primeira pedra... Sobre o meu nome pesa a maldição milenária, como sobre estes sítios cheios de miséria e de infortúnio. Pessoalmente, porém, estou saciado de justiça, porque já fui absolvido pela minha consciência no tribunal dos suplícios redentores.

Quanto ao Divino Mestre – continuou Judas com os seus prantos – infinita é a sua misericórdia e não só para comigo, porque se recebi trinta moedas, vendendo-O aos seus algozes, há muitos séculos Ele está sendo criminosamente vendido no mundo a grosso e a retalho, por todos os preços em todos os padrões do ouro amoedado...

– É verdade - concluí - e os novos negociadores do Cristo não se enforcam depois de vendê-lo.
Judas afastou-se tomando a direção do Santo Sepulcro e eu, confundido nas sombras invisíveis para o mundo, vi que no céu brilhavam algumas estrelas sobre as nuvens pardacentas e tristes, enquanto o Jordão rolava na sua quietude como um lençol de águas mortas, procurando um mar morto.

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AUTA DE SOUZA

Nem a graciosa gatinha que Auta de Souza foi, em sua breve vida, escapou dos pastiches literários de Chico Xavier, e logo quando a bela negra, de uma poesia meiga e quase infantil, começava a ser recuperada do esquecimento que a pouca fama e a vida curtíssima fizeram sucumbir.

E mais uma vez nota-se a disparidade de estilos. A poesia de Auta tinha seu estilo ao mesmo tempo feminino e juvenil, gracioso e inocente, cuja doçura salta nas suas palavras e nos seus versos delicadamente escritos.

Já a do "espírito Auta" tem uma estrutura mais bruta, e elimina todo o ritmo dos versos e toda a doçura feminina e juvenil que marcou o talento da poetisa. Selecionamos o poema original de Auta, "O Beija-Flor", publicado no seu único livro lançado em vida, Horto, de 1898, e o suposto poema espiritual, "Pensa", que Chico Xavier publicou em 1954.

As diferenças são evidentes, e o "espírito Auta" mais parece "falar" aquilo que Chico Xavier costuma falar até mesmo nas suas frases. É difícil não imaginar que se trata de um poema da própria lavra pessoal de Chico Xavier, tirado de sua mente, já que essa coisa de "maldizer a própria sorte" tem tudo a ver com a apologia do sofrimento tão famosa nos depoimentos de Chico Xavier.

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O BEIJA-FLOR

Auta de Souza - 1896 - Publicado no livro Horto

Acostumei-me a vê-lo todo o dia
De manhãzinha, alegre e prazenteiro,
Beijando as brancas flores de um canteiro
No meu jardim – a pátria da ambrosia.

Pequeno e lindo, só me parecia
Que era da noite o sonho derradeiro...
Vinha trazer às rosas o primeiro
Beijo do Sol, nessa manhã tão fria!

Um dia foi-se e não voltou... Mas quando
A suspirar me ponho, contemplando,
Sombria e triste, o meu jardim risonho...

Digo, a pensar no tempo já passado:
Talvez, ó coração amargurado,
Aquele beija-flor fosse o teu sonho!

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PENSA

Atribuído a Auta de Souza - Divulgado por Chico Xavier, em 31.07.1954

Antes de maldizer a própria sorte,
Pensa nos tristes de alma consumida,
Que vagueiam nas lágrimas da vida,
Sem migalha de amor que os reconforte.

Que a retaguarda escura nos exorte!
Contemplemos a noite indefinida
Dos que seguem sem pão e sem guarida
Entre a dor e a aflição, a treva e a morte!

Pensa e traze aos que choram no caminho
A fatia de luz do teu carinho,
Pelas mãos da bondade, terna e boa...

E encontrarás no pranto da amargura
A fonte cristalina que te apura
E a Presença do Céu que te abençoa.

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CONCLUINDO

Não há como permitir a validade dessas apropriações indébitas. Só esta comparação invalida qualquer mérito de Chico Xavier em "representar" os espíritos de Humberto e Auta. Nota-se que os estilos são muito diferentes, e portanto indicam falsidade ideológica, porque, se a vida espiritual existe, o espírito, quando volta ao "além", nunca iria trair sua própria personalidade.

Daí a "carteirada astral" que os "espíritas" fazem. Usar de seu prestígio social e religioso para permitir que apropriações indébitas dos nomes dos mortos fossem feitas, de forma a serem publicadas obras que nada têm a ver com os estilos originais dos alegados autores.

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