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Tese de que Chico Xavier previu vida em Marte é MENTIROSA

Uma grande mentira tenta aliciar o mundo científico através de uma tese que só faz sentido no Brasil marcado pela desinformação e pela mistificação fácil das coisas.

Essa tese é a de atribuir a Francisco Cândido Xavier o "pioneirismo" em até 80 anos de suposta previsão de existência de vida em Marte, através dos livros Cartas de uma Morta (1935), atribuído ao espírito de sua mãe, Maria João de Deus, e Novas Mensagens, usando o nome do falecido escritor Humberto de Campos.

A "façanha" foi festejada nos meios "espíritas" não só do Brasil como também na Europa, como atesta o blogue Artigos Espíritas, a partir de uma fofoca espalhada pelo radialista carioca Gerson Simões Monteiro desde 2004. Gerson é presidente da Rádio Rio de Janeiro AM e colunista do jornal carioca Extra.

O factoide teve repercussão favorecida por causa da visibilidade e prestígio de Gerson e do carisma até hoje altíssimo do enfocado, o anti-médium Chico Xavier. A tese não tem fundamento, mas mesmo assim é defendida pelos "espíritas" na esperança de que ela seja considerada não só nos seus meios, como comprovada e aceita nos meios científicos mais sérios.

Alguns trechos colhidos dos dois livros "psicografados" nem apresentam uma visão consistente e científica da coisa. São relatos que mais parecem narrativas fictícias, em que a imaginação fértil pressupõe aspectos que na verdade aludem a percepções terrenas. Não há qualquer tipo de indício de objetividade científica, como se pode garantir nessas passagens:

"Vi-me à frente de um lago maravilhoso, junto de uma cidade, formada de edificações profundamente análogas às da Terra. (...) Vi homens mais ou menos semelhantes aos nossos irmãos terrícolas, mas os seus organismos possuíam diferenças apreciáveis. Além dos braços, tinham ao longo das espáduas ligeiras protuberâncias à guisa de asas, que lhes prodigalizavam interessantes faculdades volitivas. (...) O ar é muitíssimo mais leve: conhecem os enigmas profundos da eletricidade, que usam com maestria; as edificações são análogas às da Terra; a vida em Marte é mais aérea – poderosas máquinas; embora existam oceanos, há pouca água; sistemas de canalização; poucas montanhas.

Assegurou-me, ainda, o desvelado mentor espiritual, que a humanidade de Marte evoluiu mais rapidamente que a Terra e que desde os pródromos da formação dos seus núcleos sociais nunca precisou destruir para viver, longe das concepções dos homens terrenos cuja vida não prossegue sem a morte e cujos estômagos estão sempre cheios de vísceras e de virtualhas de outros seres da criação".

(CARTAS DE UMA MORTA, 1935)

"Todos os grandes centros deste planeta (Marte), esclareceu o nosso amigo e mentor espiritual, sentem-se incomodados pelas influências nocivas da Terra, o único orbe de aura infeliz, nas suas vizinhanças mais próximas, e, desde muitos anos enviam mensagens ao globo terráqueo, através das ondas luminosas, as quais se confundem com os raios cósmicos cuja presença, no mundo, é registrada pela generalidade dos aparelhos radiofônicos.


Ainda há pouco tempo, o Instituto de Tecnologia da Califórnia inaugurou um vasto período de experiências, para averiguar a procedência dessas mensagens misteriosas para o homem da Terra, anotadas com mais violência pelos balões estratosféricos, conforme as demonstrações obtidas pelo Dr. Robert Millikan, nas suas experiências científicas".

"Tive, então, o ensejo de contemplar os habitantes do nosso vizinho, cuja organização física difere um tanto do arcabouço típico com que realizamos as nossas experiências terrestres. Notei, igualmente, que os homens de Marte não apresentam as expressões psicológicas da inquietação em que se mergulham os nossos irmãos das grandes metrópoles terrenas. Uma aura de profunda tranquilidade os envolve. É que, esclareceu o mentor que nos acompanhava, os marcianos já solucionaram os problemas do meio e já passaram pelas experimentações da vida animal, em suas fases mais grosseiras. Não conhecem os fenômenos da guerra e qualquer flagelo social seria, entre eles, um acontecimento inacreditável".

"Marte tem cidades fantásticas pela sua beleza inaudita: avenidas extensas e amplas, sendo as construções análogas às da Terra; a vegetação, de tonalidade vermelha, é muito mais exuberante do que a terrena. Marte é ‘um irmão mais velho e mais experimentado na vida; seus habitantes sempre oram ao Senhor do Universo, em benefício da humanidade terrena’; habitantes têm arcabouço físico algo diferente do terrestre; alimentação: através das forças atmosféricas".

(NOVAS MENSAGENS, 1939)

O "pioneirismo" de até 80 anos de Chico Xavier é atribuído a descobertas recentes feitas pela NASA (National Aeronautics and Space Administration), agência espacial dos EUA, entre 2004 e este ano, quando, anteontem, foram divulgadas fotos mostrando possíveis indícios de água salgada no território marciano.

O caráter mentiroso é que, com base nessa delirante tese, as discussões sobre a possibilidade de haver vida em Marte teriam sido "raras" e o tema de haver água e vida humana no solo marciano era "inédita" e "duvidosa" antes dos livros de Chico Xavier. Essa visão tem sentido SOMENTE no Brasil, porque no exterior ela é risível de tão desprovida de qualquer tipo de fundamento.

Em primeiro lugar, porque o assunto que os "espíritas" alegam ser "inédito" em Chico Xavier era bastante discutido por cientistas do século XIX. Os debates eram tão arrojados na época que inspirou até obras de ficção científica como A Guerra dos Mundos (The War of the Worlds) livro de 1898 do escritor britânico H. G. Wells (1866-1946).

WILLIAM WHEWELL E PERCIVAL LOWELL JÁ FALAVAM, NO SÉCULO XIX, A MESMA COISA QUE SE ATRIBUI AOS LIVROS DE CHICO XAVIER

Uma boa amostra de como eram as atividades científicas relacionadas à tese de possível presença de água e seres humanos em Marte pode ser obtida pela própria NASA, que numa página inteira mostra os trabalhos de cientistas no século XIX, antes mesmo do nascimento de Chico Xavier. A página é acessível neste endereço.

O que chama a atenção é que o que se atribui como "relatos inéditos" supostamente trazidos por Chico Xavier já haviam sido mencionados pelo historiador da ciência britânico, William Whewell (1794-1866), afirmou sobre a possibilidade de haver mares e vida humana no solo de Marte. Whewell falava praticamente a mesma coisa que se atribui aos dois livros de Xavier.

A declaração do inglês Whewell - que popularizou o termo scientist, "cientista" - , foi feita em 1854. Se essa data é anterior à obra pioneira do Espiritismo, O Livro dos Espíritos de Allan Kardec, ela é surpreendentemente anterior ao nascimento do maior deturpador da Doutrina Espírita, Chico Xavier, que nasceu em 1910, portanto 56 anos após a declaração de Whewell.

O astrônomo estadunidense, Percival Lowell (1955-1916), lançou três livros resultantes de seus estudos sobre o solo marciano, em seu observatório no Arizona. Foram eles: Mars (1895), Mars and its Canals (1906) e Mars as the Abode of Life (1908).

Note a data do livro mais recente da trilogia de Lowell: 1908. Dois anos antes de Chico Xavier nascer (1910), 27 anos antes de Cartas de uma Morta (1935) e 31 anos antes de Novas Mensagens (1939). Se lermos os livros de Lowell, com toda certeza acharíamos uma grande piada atribuir qualquer pioneirismo a Chico Xavier.

Afinal, Whewell e Lowell, para não dizer uma multidão de outros cientistas, já escreviam a mesma coisa que se vê nos livros de Xavier. Digamos isso, no sentido de relatar a existência de água e vida humana em Marte. 

Só que existe uma vantagem: os cientistas, mesmo quando fazem mera especulação, costumam analisar as coisas de forma objetiva e racional, como é de praxe no meio. Já Chico Xavier faz pregação religiosa travestida de tese científica, o que é inevitavelmente digno de contestação.

O que podemos concluir é que é definitivamente mentirosa a tese de "pioneirismo" das supostas previsões de Chico Xavier. Não tem como ir contra esta conclusão, porque o suposto pioneirismo do "médium" mineiro não possui fundamento algum. Argumentos e fatos vão contra qualquer tentativa de legitimar o suposto pioneirismo de Chico Xavier.

A alegada "façanha" atribuída a Chico Xavier, um boato "plantado" por um radialista "espírita", não é mais do que um recurso do sensacionalismo religioso feito para tentar recuperar o abatido "movimento espírita", transformando seu principal astro num falso cientista e num pretenso profeta, garantindo assim a submissão e a credulidade de seus seguidores e adeptos.

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